Poesia chinesa: a expressão de imagens da natureza
Canto de Changgan
Mal minha franja
cobria minha
fronte,
eu brincava com
flores
colhidas diante
da porta.
Com seu cavalo
de bambu, você vinha
e nos
divertíamos
em volta do poço
e no pomar,
onde as ameixas
amadureciam
Assim, juntos,
em Changgan
crescemos:
duas crianças
que não conheciam
a desconfiança e
a raiva.
A partir dos
quatorze,
me tornei sua
mulher.
Tímida, tão
tímida,
nem mesmo ousava
sorrir,
os olhos sempre
baixos,
voltados para os
cantos escuros.
Mil vezes você
me chamava,
mas eu nunca
respondia.
Aos quinze anos
deixei de franzir
as sobrancelhas.
Eu e você
queríamos
nos transformar
em um,
como cinza e
poeira.
Eu acreditava em
você como alguém
que espera sua
namorada
embaixo da ponte,
apesar das águas
agitadas.
Por que eu
pensaria
na colina onde
as mulheres aguardam
o retorno dos
seus maridos?
Quando fiz
dezesseis anos,
você partiu para
longe,
para a garganta
do rio Qutang,
onde se ergue o
monte Yanyu.
É maio, por
favor, cuide-se
no caminho entre
rochas.
Os guinchos
pungentes dos macacos
sobem ao céu.
Diante da casa,
marcas antigas
de seus passos,
cobertas
de espesso limo.
Eu não consigo
varrê-las!
E também as
folhas
tocadas fora de
época pelo vento.
No oitavo mês
as borboletas
vestem-se de amarelo.
Aos pares,
voam sobre a
erva
do jardim do
Oeste.
Tudo isso deixa
triste meu coração,
ao ver a
primavera
partir assim tão
depressa.
Cedo ou tarde,
quando você
regressar, vindo
pelo rio,
escreva-me antes
uma carta,
por favor.
Irei ao seu encontro,
sem medo da
distância
pela estrada
longínqua,
até o porto
dos areais do
Vento Sem Fim.
Há muitos e muitos séculos constatou-se que houve povos sem prosa,
sem uma linguagem abstrata, no entanto, nunca houve povos sem poesia. A poesia
reside no âmago do ser. Octávio Paz sempre insistiu neste ponto. A poesia, ou
seja, a necessidade de expressão do que vem de dentro. De uma interioridade. A poesia chinesa possui uma leveza
incomparável. O poema em referência é de Li Bai
(701-762). Muito conhecido na China por ser considerado um poeta
imortal. Sua marca foi a busca, sem precedentes, da liberdade. Irreverência
sempre foi a sua marca. Insubmisso, jamais respeitou leis e determinações do
poder. Os principais elementos da poesia da chinesa são constatados, em
especial, pela linguagem. Imagens leves e, ao mesmo tempo, muito ligadas à
natureza. O poema de Li Bai permite que se
conheça, um pouco mais de perto, as associações e sentimentos de uma memória
poética que coexiste com as demais.
Profa. Ana Maria Haddad
Baptista
Belíssima poesia e imagino que, no original, seja ainda mais bela. Obrigado por compartilhar desse "pão dos malditos", como dizia o velho Paz.
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