Profa. Ana Maria Haddad Baptista
O século XIX foi um dos grandes potencializadores do que hoje
entendemos pela (talvez) perversa aceleração dos ritmos de temporalidade da
contemporaneidade. Os famosos sinos de Paris que anunciavam as horas, os
entardeceres, cediam dolorosamente a
relógios implacáveis mudando o ritmo da cidade e de seus habitantes.
Foi basicamente neste contexto que nasce uma grande obra: Os Miseráveis, Victor Hugo (1802-1885). O
livro foi lançado no dia 03.04.1862 em Paris e, simultaneamente, em outras cidades do mundo, inclusive, no Rio
de Janeiro.
Aqui no Brasil passou por diversas editoras. Contudo, a
editora CosacNaify faz da obra, materialmente, uma verdadeira obra prima. A
tradução primorosa é de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Logo ao abrir o
fascinante livro, temos como um presente
uma tela de Eugène Delacroix. Posteriormente, a apresentação de nosso
querido mestre Renato Janine Ribeiro que traz comentários excelentes para
integrar os leitores à uma leitura da obra mais abrangente.
A obra se divide em inúmeros livros, num único volume, totalizando 1280 páginas. Nessa medida, Victor
Hugo oferece ao leitor descrições detalhadas
não somente dos ambientes, mas das personagens. Cada descrição,
estranhamente, por mais detalhada que seja, estimula nossa leitura. Por quê?
Porque a confrontamos com os nossos
valores. Comportamentos humanos, lições de ética, eis pontos primordiais deste
grande livro. Um ponto deve ser destacado: o autor não se distancia, não se
isenta. Embora narre em terceira pessoa, ei-lo a nos convencer de seu ponto de
vista. Desta maneira nosso pensamento entra em plena ação, como no seguinte
trecho: “O excessivo peso desse homem sobre os destinos humanos perturbava o
equilíbrio. Ele, sozinho, valia mais do que toda a humanidade. Essa
superabundância de vitalidade humana concentrada em uma única cabeça, o mundo
subindo ao cérebro de um homem, seria fatal para a civilização, se continuasse
. Chegara o momento em que devia intervir a incorruptível equidade suprema.
Provavelmente, os princípios e os elementos de que dependem as gravitações
regulares, tanto na ordem moral como na ordem material, já principiavam a
reclamar. O sangue ainda quente, tantos cemitérios abertos, tantas mães em
lágrimas, são motivos terrivelmente
suficientes. Quando a terra sente-se sobrecarregada, ouvem-se misteriosos
gemidos saindo das sombras, ouvidas pelos abismos.”
Por mais que se fale de Os Miseráveis nos sentimos em débito. Leitura ao infinito. Inesgotável. Reserva
de vida. Potencializadora de pensamento.
Entretanto, o melhor da leitura de Os
Miseráveis está em sua dimensão duplamente filosófica.
Conforme a história
avança, as indagações filosóficas brotam
como albatrozes em mares mediterrâneos quando seguem nossas embarcações…Quais
são os limites entre a bondade, a piedade e o conformismo? Quais são nossos
verdadeiros compromissos com o existencial? E muitas outras! Uma outra
perspectiva é extremamente intrínseca. Quando lemos Os Miseráveis, a duração no sentido em que Bergson a conceituou, ou
seja, a indivisibilidade do tempo interior, a temporalidade qualitativa de
nossa interioridade, imediatamente é resgatada, devolvida. Temporalidades em durações cada vez mais extensíveis a camadas
profundas de nosso eu.
Onde se localiza o tempo em todas as suas
dimensões? Na imaterialidade de um futuro hipotecado que subtrai as
subjetividades. No futuro que nunca chega e jamais cumprirá suas promessas.A
maior lição de Victor Hugo: Afinal… somos
todos miseráveis.Obs: Grande parte deste texto foi publicado na Revista Filosofia Ciência & Vida.
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