quinta-feira, 14 de março de 2013

Os Miseráveis: em busca das durações subtraídas





Profa. Ana Maria Haddad Baptista




O século XIX foi um dos grandes potencializadores do que hoje entendemos pela (talvez) perversa aceleração dos ritmos de temporalidade da contemporaneidade. Os famosos sinos de Paris que anunciavam as horas, os entardeceres, cediam dolorosamente  a relógios implacáveis mudando o ritmo da cidade e de seus habitantes.
Foi basicamente neste contexto que nasce uma grande obra: Os Miseráveis, Victor Hugo (1802-1885). O livro foi lançado no dia 03.04.1862 em Paris e, simultaneamente,  em outras cidades do mundo, inclusive, no Rio de Janeiro.
Aqui no Brasil passou por diversas editoras. Contudo, a editora CosacNaify faz da obra, materialmente, uma verdadeira obra prima. A tradução primorosa é de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Logo ao abrir o fascinante livro, temos como um presente  uma tela de Eugène Delacroix. Posteriormente, a apresentação de nosso querido mestre Renato Janine Ribeiro que traz comentários excelentes para integrar os leitores à uma leitura da obra mais abrangente.
A obra se divide em inúmeros livros, num único volume,  totalizando 1280 páginas. Nessa medida, Victor Hugo oferece ao leitor descrições detalhadas  não somente dos ambientes, mas das personagens. Cada descrição, estranhamente, por mais detalhada que seja, estimula nossa leitura. Por quê? Porque  a confrontamos com os nossos valores. Comportamentos humanos, lições de ética, eis pontos primordiais deste grande livro. Um ponto deve ser destacado: o autor não se distancia, não se isenta. Embora narre em terceira pessoa, ei-lo a nos convencer de seu ponto de vista. Desta maneira nosso pensamento entra em plena ação, como no seguinte trecho: “O excessivo peso desse homem sobre os destinos humanos perturbava o equilíbrio. Ele, sozinho, valia mais do que toda a humanidade. Essa superabundância de vitalidade humana concentrada em uma única cabeça, o mundo subindo ao cérebro de um homem, seria fatal para a civilização, se continuasse . Chegara o momento em que devia intervir a incorruptível equidade suprema. Provavelmente, os princípios e os elementos de que dependem as gravitações regulares, tanto na ordem moral como na ordem material, já principiavam a reclamar. O sangue ainda quente, tantos cemitérios abertos, tantas mães em lágrimas,  são motivos terrivelmente suficientes. Quando a terra sente-se sobrecarregada, ouvem-se misteriosos gemidos saindo das sombras, ouvidas pelos abismos.”
Por mais que se fale de Os  Miseráveis  nos sentimos  em débito. Leitura ao infinito. Inesgotável. Reserva de vida. Potencializadora  de pensamento. Entretanto, o melhor da leitura de Os Miseráveis está em sua dimensão duplamente filosófica.
 Conforme a história avança,  as indagações filosóficas brotam como albatrozes em mares mediterrâneos quando seguem nossas embarcações…Quais são os limites entre a bondade, a piedade e o conformismo? Quais são nossos verdadeiros compromissos com o existencial? E muitas outras! Uma outra perspectiva é extremamente intrínseca.  Quando lemos Os Miseráveis, a duração no sentido em que Bergson a conceituou, ou seja, a indivisibilidade do tempo interior, a temporalidade qualitativa de nossa interioridade, imediatamente é resgatada, devolvida. Temporalidades  em durações cada vez mais extensíveis  a camadas  profundas de nosso eu.
Onde se localiza o tempo em todas as suas dimensões? Na imaterialidade de um futuro hipotecado que subtrai as subjetividades. No futuro que nunca chega e jamais cumprirá suas promessas.A maior lição de Victor Hugo:  Afinal… somos todos miseráveis.


Obs: Grande parte deste texto foi publicado na Revista Filosofia Ciência & Vida.

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