segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Literatura, Interdisciplinaridade e Filosofia




A interdisciplinaridade está, de certa forma, diretamente, associada ao universo de leituras gerais de cada um de nós. Quanto maior nosso repertório pictórico, teatral, musical, literário e outros, maiores nossas possibilidades de visualizarmos as conexões que poderão ser estabelecidas entre os diversos segmentos do conhecimento.
A Literatura é um caminho cheio de bifurcações para que possamos compartilhar conhecimento e experiências em todos os níveis. A Filosofia é como um jardim infinito que encaminha para a fascinação e admiração daquilo que realmente merece.



Em Espinosa a vida não é uma ideia, uma questão de teoria. Ela é uma maneira de ser, um mesmo modo eterno em todos os atributos. E é somente sob este ponto de vista que o método geométrico adquire todo o seu sentido. Aquele, na Ética, opõe-se ao que Espinosa chama uma sátira; a sátira é tudo aquilo que se compraz com a impotência e com a dor dos homens, tudo o que exprime o desespero e a mofa, tudo o que se nutre de acusações, malevolências, depreciações, más interpretações, tudo o que despedaça as almas (o tirano tem necessidade de almas despedaçadas, assim como as almas despedaçadas, de um tirano). O método geométrico deixa de ser um método de exposição intellectual; já não se trata de uma exposição professoral, mas de um método de invenção.

[Gilles Deleuze]

Creio que este mundo moderno em que vivemos, tiranizado pelo medo e pela inquietude, necessita da poesia. A poesia possui suas raízes na respiração humana, e o que seria de todos nós se nosso alimento perdesse o vigor ? (…) Devo lembrar que o homem sempre sente necessidade de ouvir essa voz humana que chamamos poesia. Essa voz que todo o tempo está em perigo de extinguir-se por falta de amor, e que renasce uma ou outra vez. Perseguida, ela sabe onde encontrar refúgio; repudiada, conta com o instinto para ir ao encontro de suas raízes nos lugares mais inesperados.

[Giorgos Seféris]


Memórias e temporalidades esvaziadas

Determinadas áreas do conhecimento, segmentos artísticos, icluindo a literatura, possuem uma posição  sem prestígio dentro do contexto atual. Sabe-se, e isso não é de hoje, que as ciências humanas ocupam um espaço secundário dentro do que se elege como prático, imediato e que renda dinheiro.
 Desde o início do século XX que, infelizmente, pergunta-se para que serviriam Literatura, Filosofia, Sociologia e outras áreas do conhecimento que envolvem, especialmente, o ser humano, ou seja, a área das humanidades. Ora, diferentemente de uma pedra, de uma barata, de uma girafa, de uma borboleta, de uma nuvem, de um sorvete, o ser humano em todos os níveis possíveis ocupa um lugar mais complexo na escala da história.
Assistimos ao desmoronamento total de valores e, infelizmente, não vemos muitos outros substituindo os antigos, eis a grande questão. Quais são os novos valores? Quais suas bases e estruturas? Quais seus alicerces num mundo de desmemórias? Em um universo que exige a imediaticidade em todos os sentidos? Como diria Giorgos Seféris: “Paralisante ideia de fugacidade. Casas, mortes, separações. A vida humana está cheia de tempos: tempo de sonhar, tempo de reconhecer, tempo de tristeza, tempo de alegria, tempo de amor, tempo de solidão.”
Enfim, e isso já virou quase uma lamentação comum: o contemporâneo  que  exige a imediaticidade de, absolutamente, tudo, não deixa espaço para a compreensão de  algo a médio e longo prazo, como seria o caso, por exemplo, da sabedoria que podem nos legar a literatura e a filosofia. Ausência de paixões alegres e potentes. Potencialização de mecanismos que vivem de almas despedaçadas. Corvos invadem, sem piedade, temporalidades. Subjetividades. Abundância de desmemórias.
A filosofia ocidental, como se sabe, nasceu, especialmente, para responder a indagações humanas,  que nunca foram respondidas  plenamente, visto que continuam atuais. Certos conflitos humanos continuam, mais do que nunca, irrespondíveis. Continuam martelando as mentes tanto quanto antes.
A literatura de Homero foi a grande fonte de ensinamentos de todas as formas de sabedoria dos antigos. Platão, sabe-se, leu Homero. Contudo, os imbecis poderão  afirmar: mas isso foi na Antiguidade Grega, os dias de hoje não comportam mais  espaços para literatura e filosofia, como se os tempos humanos, as memórias,  se dessem de forma isolada…Quando nascemos o universo está em funcionamento, fluindo. O fluir das ideias. O fluir das interrogações. O fluir das invenções. O fluir dos encontros fundamentais. O fluir das transformações.
Uma outro questionamento que nos cabe aqui é a respeito do papel das ciências. Sabe-se, mais do que nunca, que as ciências, de alguns séculos para cá, ocupam os espacos centrais das discussões, das preocupações, do pretígio. Ora, se esquece, facilmente, que as ciências especialmente aquelas ditas duras, mais voltadas para a  pretensa exatidão, são construções humanas. Embora tal discussão esteja praticamente esgotada, vale a pena recordar um pouco mais.
As ciências, de um modo geral, inclusive, as mais pretensamente exatas são fruto de uma construção humana. Todas elas. Nenhuma escapa. Mesmo a ciência mais exata, depende, queira-se ou não, de um sistema de coordenadas que materializam  uma grande representação, em maior ou em menor grau.
Contudo, as ciências conseguiram adquirir um tom de verdade, legitimidade, talvez, sem precedentes. Com muita razão afirma Foucault, em vários momentos  de questionamentos a respeito do sujeito moderno, que, enquanto a literatura ainda necessita da autoridade do autor, inclusive, para ser legitimada, a ciência há muito tempo, por si, se consitui em uma autoridade.
Dificilmente alguém pergunta, quando se faz uma descoberta, ou quando se lança um resultado de pesquisa, na ciência, o nome do autor. Pouco importa quem fez ou inventou uma teoria, com exceção aos grandes nomes como Netwon, Einstein, o nome do cientista não é importante. No caso da literatura, quase impossível  pensar a obra sem o autor. Nesse sentido, a literatura, assim como a filosofia, não gozam do suposto e pretenso prestígio das ciências como um todo,  isso somente para ficarmos com alguns casos isolados.
Um outro ponto em relação às ciências que a maioria esquece: a ciência não é dona de verdades absolutas, possui respostas transitórias a uma série de coisas, inclusive, e mais do que nunca, em relação aos componentes que estruturam o real, uma questão central da física, por exemplo. Entretanto, possui tamanha autoridade, que, parafraseando as sábias palavras de Saramago:  fabricam mentiras que são tomadas por verdades, e verdades que se passam por mentiras, impondo, desta maneira,  credibilidade. Credibilidade a ciência possui e de sobra. Contudo, pouco se destaca que a ciência, a literatura e a filosofia possuem o essencial em comum: buscam a verdade. Ainda que, felizmente, por critérios diferentes.

Filosofia: teoria e prática?

Para que serve a filosofia? Muitos se perguntam e respondem sem vacilar: a filosofia serve para ajudar a pensar, a filosofia é apenas uma teoria, sem caráter prático e de pouca utilidade para o dia a dia, para os problemas mais cotidianos que a humanidade deve enfrentar. Ou, no máximo: a filosofia nos abre a cabeça para pensarmos em coisas que nunca antes havíamos cogitado.
Quanto ao ensino formal da filosofia obedece a um cruel pêndulo que vai de acordo com os sabores de políticas governamentais, geralmente, irresponsáveis, ou seja, quando ele se mostra favorável a um determinado plano governamental é legitimado nas escolas, quando uma  ciência é julgada mais importante, a filosofia “cai”.  Enfim, oscila descaradamente. Aliás, diga-se de passagem, quando as estatísticas a respeito de educação destacam resultados desastrosos a respeito de interpretação, redação, a primeira coisa que se pensa é recorrer ao ensino de filosofia, como se ela pudesse fazer mudanças do dia para a noite. E como não faz, algum tempo depois, renovam-se as pesquisas e constatam que de nada adiantou o tal do ensino da filosofia.  Retirada de cena. Colocada. Retirada.Jamais a filosofia dará resultados imediatos porque, por si, implica em responsabilidades em todos os graus.
Para que serve a filosofia? Todas as correntes da filosofia comportam, naturalmente, uma dimensão cognitiva, teórica. Todas as correntes da filosofia comportam uma dimensão prática da vida. Absolutamente todas. Evidentemente que por segmentos diferentes. Mas, somente para ficarmos com alguns poucos exemplos: o que seriam das questões de interpretação de mundo se não fossem os postulados da  hermenêutica? O que se seria da linguagem, material e fisicamente, se o Crátilo de Platão não deixasse registrado questões fundamentais, até hoje, para a linguística, literatura, gramática a respeito de representações?
O que seria do ato de pensar, se Platão, como tão bem nos coloca Deleuze, não tivesse introduzido o tempo no pensamento? Aliás, o que seriam das formas de apreensão de realidade e verdade, tão fundamentais e vitais para a humanidade se Platão não as tivesse questionado? Será que teríamos a mesma compreensão a respeito do amor e das paixões se o Banquete não estivesse registrado?
Espinosa,  via Marilena Chauí e outros grandes pensadores , por um acaso, não traz em suas obras uma dimensão política, definitivamente, para ser colocada na prática de cada um? Na prática das relações? Na prática de nosso trabalho e de nossa forma de ser? O que dizer das paixões de Espinosa? Como desmacarar os tiranos, as submissões, a escravidão, a falta de liberdade em todos os sentidos, se não fosse Espinosa? Como potencializar nossas ações sem Espinosa?
Como pensar  a subjetividade sem Kant? Toda a filosofia moderna, sabe-se, não pode escapar das estruturas reflexivas da subjetividade. O tempo, nos postulados kantianos, adquire uma dimensão de interioridade humana jamais concebida anteriormente.
Cremos, somente para ficarmos com mais um exemplo, dos inúmeros que poderiam ser destacados,  ser fundamental o conceito de duração, proposto por Bergson, para se compreender de forma mais rica os grandes romances da literatura que se debruçaram acerca do comportamento humano, assim como em possibilidades de subjetividades jamais pensadas.


Qual seria o efetivo papel da literatura em nossas vidas?

Saramago, em momentos de agudo extremismo, aliado a um pessimismo pontual, afirmou, que se Shakespeare e outros grandes escritores não tivessem existido, o mundo teria caminhado do mesmo jeito, ou nada teria mudado na humanidade. Falkner ao ser indagado a respeito de suas obras declarou, certa vez , que a sua literatura não tinha a menor importância, visto, que, segundo ele, qualquer um poderia tê-la realizado.  Declara Hemingway, quando lhe perguntaram o que deveria fazer, intelectualmente, alguém que se dispusesse a ser um escritor:   “Digamos que ele deva enforcar-se, por descobrir que escrever bem é difícil a ponto de ser impossível. Então ele deve ser retirado da forca impiedosamente, e forçado por si próprio a escrever o melhor que possa para o resto de sua vida. Pelo menos terá, como ponto de partida, a história do enforcamento.”
Contudo, apesar do amargor e da ironia de muitos e muitos escritores, sabemos que as coisas não se passam desta maneira.
Homero foi e continua sendo um grande mestre não somente porque exerceu uma influência enorme na literatura ocidental, como foi uma verdadeira memória de fatos, acontecimentos, estruturas, enfim, foi fonte bebida por cientistas, filósofos, escritores e continua sendo. Homero, nosso eterno Homero.
Os subterrâneos da alma humana jamais teriam sido desvelados, desvendados sem a literatura de Dostoiévkski; sabe-se, Freud, entre outros, bebeu desta fonte russa.
Nenhuma interioridade animal teria sido tão detalhada e conhecida, caso não existissem Flush de Virginia Woof e Baleia de Graciliano Ramos. Certamente, Peirce, o grande investigador de linguagens, dentre outras coisas, teve contato direto ou indireto com O Idiota do grande mestre russo,  para que categorizasse de forma tão abrangente o ícone e a primeiridade. A literatura, certamente, como muitos escritores, estudiosos e outros já pensaram, não possui o poder de transformar radicalmente uma sociedade, contudo, individualmente pode apontar para caminhos dantes nunca sonhados por várias pessoas. Literatura é possibilidade que pode ser materializada ou não. Literatura é sonho. Pode ser concretizado ou não.

Possibilidades da literatura e filosofia

A filosofia e a literatura, embora possuam  preocupações intrínsecas, ao mesmo tempo, possuem convergências bastante importantes. Um romance, um conto, uma poesia, carregam em si mesmos, quando verdadeiramente arte, espaços epistemológicos no mesmo grau de uma discussão filosófica, como  seria o caso, por exemplo, do grande romance, A Montanha  Mágica, de Mann, em relação a questões de temporalidade; outra dimensão de convergência seria  uma das propostas por Benedito Nunes: “Filósofos, os pré-socráticos pensaram o ser e o vir a ser como poetas que escreviam em versos, a exemplo de Parmênides, ou em aforismos sibilinos, como Heráclito. A partir deles,  nenhuma filosofia viveria mais sem metáfora.”
Literatura e filosofia, juntas ou separadas, desencadeiam processos indispensáveis à humanidade. Cremos, que, a partir do que foi exposto, diferentemente, do que muitos escritores e outros pensam, caso não existissem a literatura e a filosofia, em especial, sem desprezar as outras áreas do conhecimento, a humanidade estaria muito pior do que se apresenta na contemporaneidade.
Contudo, não cremos que tanto a filosofia, como a literatura, possam, isoladamente, mudar todos os rumos de uma sociedade ou possam promover transformações em grande escala, como se estivessem fabricando carneiros ordinários de plástico, tartarugas submissas, bonecas inexpressivas, irresponsáveis mamadeiras…
Como tudo,  a filosofia e a literatura dependem de um encontro fundamental entre o desejo no sentido de Marilena Chaui, via Espinosa: “Não desejamos nem fazemos coisas porque as julgamos boas, belas, justas ou verdadeiras, mas porque as desejamos e as fazemos, as julgamos assim. O juízo sobre as coisas não determina o desejo, mas é determinado por ele.” Literatura e filosofia são, inclusive, caminhos para que tenhamos ciência da posse de nossa liberdade. Da existência de singularidades.  Por um outro lado, de acordo Deleuze, literatura e filosofia são, acima de tudo,  produtoras de conceitos.
Finalizamos com a habitual poeticidade da filosofia de Deleuze: “Todos os aprendizados, pelas mais diversas vias, são aprendizados inconscientes da própria arte. No nível mais profundo, o essencial está nos signos da arte.”
A verdadeira literatura, assim como a filosofia, buscam, implacavelmente, a humanização. Jamais compactuam ou reforçam  sistemas submissos. Não concedem, sem resistência, nada aos opressores em qualquer escala.O mundo de magia da literatura seduz, por si só, porque, essencialmente, promove uma abertura possível das subjetividades. Filosofia e literatura. Encontros vitais com inventividades inesperadas.

Referências Bibliográficas

BAPTISTA, Ana Maria Haddad Baptista. Tempo-memória. São Paulo, Arké Editora, 2007.
BERGSON, Henri. Memória e Vida: textos escolhidos por Gilles Deleuze. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
CHAUÍ, Marilena. Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa. São Paulo, Cia das Letras, 2011.
DELEUZE, Gilles. Proust e os signos. Tradução de Antonio Carlos Piquet e Roberto Machado. Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
_________________. Espinosa e os signos. Tradução de Abílio Ferreira. Porto, RÉS-Editora Ltda, [s.d.].
NUNES, Benedito. Ensaios Filosóficos. São Paulo, Martins Fontes, 2010.
SEFÉRIS, Giorgos. Todo está lleno de dioses. Tradução de Selma Ancira. México, Fondo de Cultura Económica, 1974.
As entrevistas da Paris Review, vol. I. Tradução de Christian Schwartz e Sérgio Alcides. São Paulo, Cia das Letras, 2011.

 Observação: Boa parte deste texto já foi publicado em revistas e livros.

Profa. Ana Maria Haddad Baptista

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