A interdisciplinaridade está, de certa forma, diretamente, associada ao universo de leituras gerais de cada um de nós. Quanto maior nosso repertório pictórico, teatral, musical, literário e outros, maiores nossas possibilidades de visualizarmos as conexões que poderão ser estabelecidas entre os diversos segmentos do conhecimento.
A Literatura é um caminho cheio de bifurcações para que possamos compartilhar conhecimento e experiências em todos os níveis. A Filosofia é como um jardim infinito que encaminha para a fascinação e admiração daquilo que realmente merece.
Em Espinosa a vida não é uma ideia,
uma questão de teoria. Ela é uma maneira de ser, um mesmo modo eterno em todos
os atributos. E é somente sob este ponto de vista que o método geométrico
adquire todo o seu sentido. Aquele, na Ética, opõe-se ao que Espinosa chama uma
sátira; a sátira é tudo aquilo que se compraz com a impotência e com a dor dos
homens, tudo o que exprime o desespero e a mofa, tudo o que se nutre de
acusações, malevolências, depreciações, más interpretações, tudo o que
despedaça as almas (o tirano tem necessidade de almas despedaçadas, assim como
as almas despedaçadas, de um tirano). O método geométrico deixa de ser um
método de exposição intellectual; já não se trata de uma exposição professoral,
mas de um método de invenção.
[Gilles
Deleuze]
Creio que este mundo moderno em que
vivemos, tiranizado pelo medo e pela inquietude, necessita da poesia. A poesia
possui suas raízes na respiração humana, e o que seria de todos nós se nosso
alimento perdesse o vigor ? (…) Devo lembrar que o homem sempre sente necessidade
de ouvir essa voz humana que chamamos poesia. Essa voz que todo o tempo está em
perigo de extinguir-se por falta de amor, e que renasce uma ou outra vez.
Perseguida, ela sabe onde encontrar refúgio; repudiada, conta com o instinto
para ir ao encontro de suas raízes nos lugares mais inesperados.
[Giorgos
Seféris]
Memórias e temporalidades esvaziadas
Determinadas
áreas do conhecimento, segmentos artísticos, icluindo a literatura, possuem uma
posição sem prestígio dentro do contexto
atual. Sabe-se, e isso não é de hoje, que as ciências humanas ocupam um espaço
secundário dentro do que se elege como prático, imediato e que renda dinheiro.
Desde o início do século XX que, infelizmente,
pergunta-se para que serviriam Literatura, Filosofia, Sociologia e outras áreas
do conhecimento que envolvem, especialmente, o ser humano, ou seja, a área das
humanidades. Ora, diferentemente de uma pedra, de uma barata, de uma girafa, de
uma borboleta, de uma nuvem, de um sorvete, o ser humano em todos os níveis
possíveis ocupa um lugar mais complexo na escala da história.
Assistimos
ao desmoronamento total de valores e, infelizmente, não vemos muitos outros
substituindo os antigos, eis a grande questão. Quais são os novos valores?
Quais suas bases e estruturas? Quais seus alicerces num mundo de desmemórias?
Em um universo que exige a imediaticidade em todos os sentidos? Como diria
Giorgos Seféris: “Paralisante ideia de fugacidade. Casas, mortes, separações. A
vida humana está cheia de tempos: tempo de sonhar, tempo de reconhecer, tempo
de tristeza, tempo de alegria, tempo de amor, tempo de solidão.”
Enfim, e
isso já virou quase uma lamentação comum: o contemporâneo que
exige a imediaticidade de, absolutamente, tudo, não deixa espaço para a
compreensão de algo a médio e longo
prazo, como seria o caso, por exemplo, da sabedoria que podem nos legar a literatura
e a filosofia. Ausência de paixões alegres e potentes. Potencialização de
mecanismos que vivem de almas despedaçadas. Corvos invadem, sem piedade,
temporalidades. Subjetividades. Abundância de desmemórias.
A filosofia
ocidental, como se sabe, nasceu, especialmente, para responder a indagações humanas,
que nunca foram respondidas plenamente, visto que continuam atuais.
Certos conflitos humanos continuam, mais do que nunca, irrespondíveis. Continuam martelando as mentes tanto quanto antes.
A literatura
de Homero foi a grande fonte de ensinamentos de todas as formas de sabedoria
dos antigos. Platão, sabe-se, leu Homero. Contudo, os imbecis poderão afirmar: mas isso foi na Antiguidade Grega, os
dias de hoje não comportam mais espaços
para literatura e filosofia, como se os tempos humanos, as memórias, se dessem de forma isolada…Quando nascemos o
universo está em funcionamento, fluindo. O fluir das ideias. O fluir das
interrogações. O fluir das invenções. O fluir dos encontros fundamentais. O
fluir das transformações.
Uma outro
questionamento que nos cabe aqui é a respeito do papel das ciências. Sabe-se,
mais do que nunca, que as ciências, de alguns séculos para cá, ocupam os espacos
centrais das discussões, das preocupações, do pretígio. Ora, se esquece,
facilmente, que as ciências especialmente aquelas ditas duras, mais voltadas
para a pretensa exatidão, são
construções humanas. Embora tal discussão esteja praticamente esgotada, vale a
pena recordar um pouco mais.
As ciências,
de um modo geral, inclusive, as mais pretensamente exatas são fruto de uma
construção humana. Todas elas. Nenhuma escapa. Mesmo a ciência mais exata,
depende, queira-se ou não, de um sistema de coordenadas que materializam uma grande representação, em maior ou em menor
grau.
Contudo, as
ciências conseguiram adquirir um tom de verdade, legitimidade, talvez, sem precedentes.
Com muita razão afirma Foucault, em vários momentos de questionamentos a respeito do sujeito moderno,
que, enquanto a literatura ainda necessita da autoridade do autor, inclusive,
para ser legitimada, a ciência há muito tempo, por si, se consitui em uma
autoridade.
Dificilmente
alguém pergunta, quando se faz uma descoberta, ou quando se lança um resultado
de pesquisa, na ciência, o nome do autor. Pouco importa quem fez ou inventou
uma teoria, com exceção aos grandes nomes como Netwon, Einstein, o nome do
cientista não é importante. No caso da literatura, quase impossível pensar a obra sem o autor. Nesse sentido, a
literatura, assim como a filosofia, não gozam do suposto e pretenso prestígio
das ciências como um todo, isso somente
para ficarmos com alguns casos isolados.
Um outro
ponto em relação às ciências que a maioria esquece: a ciência não é dona de
verdades absolutas, possui respostas transitórias a uma série de coisas,
inclusive, e mais do que nunca, em relação aos componentes que estruturam o
real, uma questão central da física, por exemplo. Entretanto, possui tamanha
autoridade, que, parafraseando as sábias palavras de Saramago: fabricam mentiras que são tomadas por
verdades, e verdades que se passam por mentiras, impondo, desta maneira, credibilidade. Credibilidade a ciência possui
e de sobra. Contudo, pouco se destaca que a ciência, a literatura e a filosofia
possuem o essencial em comum: buscam a verdade. Ainda que, felizmente, por
critérios diferentes.
Filosofia: teoria e prática?
Para que
serve a filosofia? Muitos se perguntam e respondem sem vacilar: a filosofia
serve para ajudar a pensar, a filosofia é apenas uma teoria, sem caráter prático
e de pouca utilidade para o dia a dia, para os problemas mais cotidianos que a
humanidade deve enfrentar. Ou, no máximo: a filosofia nos abre a cabeça para
pensarmos em coisas que nunca antes havíamos cogitado.
Quanto ao
ensino formal da filosofia obedece a um cruel pêndulo que vai de acordo com os
sabores de políticas governamentais, geralmente, irresponsáveis, ou seja,
quando ele se mostra favorável a um determinado plano governamental é
legitimado nas escolas, quando uma
ciência é julgada mais importante, a filosofia “cai”. Enfim, oscila descaradamente. Aliás, diga-se
de passagem, quando as estatísticas a respeito de educação destacam resultados
desastrosos a respeito de interpretação, redação, a primeira coisa que se pensa
é recorrer ao ensino de filosofia, como se ela pudesse fazer mudanças do dia
para a noite. E como não faz, algum tempo depois, renovam-se as pesquisas e constatam
que de nada adiantou o tal do ensino da filosofia. Retirada de cena. Colocada. Retirada.Jamais a
filosofia dará resultados imediatos porque, por si, implica em
responsabilidades em todos os graus.
Para que
serve a filosofia? Todas as correntes da filosofia comportam, naturalmente, uma
dimensão cognitiva, teórica. Todas as correntes da filosofia comportam uma
dimensão prática da vida. Absolutamente todas. Evidentemente que por segmentos
diferentes. Mas, somente para ficarmos com alguns poucos exemplos: o que seriam
das questões de interpretação de mundo se não fossem os postulados da hermenêutica? O que se seria da linguagem, material
e fisicamente, se o Crátilo de Platão não deixasse registrado questões
fundamentais, até hoje, para a linguística, literatura, gramática a respeito de
representações?
O que seria
do ato de pensar, se Platão, como tão bem nos coloca Deleuze, não tivesse
introduzido o tempo no pensamento? Aliás, o que seriam das formas de apreensão
de realidade e verdade, tão fundamentais e vitais para a humanidade se Platão
não as tivesse questionado? Será que teríamos a mesma compreensão a respeito do
amor e das paixões se o Banquete não estivesse registrado?
Espinosa, via Marilena Chauí e outros grandes
pensadores , por um acaso, não traz em suas obras uma dimensão política,
definitivamente, para ser colocada na prática de cada um? Na prática das
relações? Na prática de nosso trabalho e de nossa forma de ser? O que dizer das
paixões de Espinosa? Como desmacarar os tiranos, as submissões, a escravidão, a
falta de liberdade em todos os sentidos, se não fosse Espinosa? Como
potencializar nossas ações sem Espinosa?
Como
pensar a subjetividade sem Kant? Toda a
filosofia moderna, sabe-se, não pode escapar das estruturas reflexivas da
subjetividade. O tempo, nos postulados kantianos, adquire uma dimensão de
interioridade humana jamais concebida anteriormente.
Cremos,
somente para ficarmos com mais um exemplo, dos inúmeros que poderiam ser
destacados, ser fundamental o conceito
de duração, proposto por Bergson, para se compreender de forma mais rica os
grandes romances da literatura que se debruçaram acerca do comportamento
humano, assim como em possibilidades de subjetividades jamais pensadas.
Qual seria o efetivo papel da
literatura em nossas vidas?
Saramago, em
momentos de agudo extremismo, aliado a um pessimismo pontual, afirmou, que se
Shakespeare e outros grandes escritores não tivessem existido, o mundo teria
caminhado do mesmo jeito, ou nada teria mudado na humanidade. Falkner ao ser
indagado a respeito de suas obras declarou, certa vez , que a sua literatura
não tinha a menor importância, visto, que, segundo ele, qualquer um poderia
tê-la realizado. Declara Hemingway,
quando lhe perguntaram o que deveria fazer, intelectualmente, alguém que se dispusesse
a ser um escritor: “Digamos que ele deva enforcar-se, por
descobrir que escrever bem é difícil a ponto de ser impossível. Então ele deve
ser retirado da forca impiedosamente, e forçado por si próprio a escrever o
melhor que possa para o resto de sua vida. Pelo menos terá, como ponto de
partida, a história do enforcamento.”
Contudo,
apesar do amargor e da ironia de muitos e muitos escritores, sabemos que as
coisas não se passam desta maneira.
Homero foi e
continua sendo um grande mestre não somente porque exerceu uma influência
enorme na literatura ocidental, como foi uma verdadeira memória de fatos,
acontecimentos, estruturas, enfim, foi fonte bebida por cientistas, filósofos,
escritores e continua sendo. Homero, nosso eterno Homero.
Os subterrâneos
da alma humana jamais teriam sido desvelados, desvendados sem a literatura de Dostoiévkski;
sabe-se, Freud, entre outros, bebeu desta fonte russa.
Nenhuma
interioridade animal teria sido tão detalhada e conhecida, caso não existissem
Flush de Virginia Woof e Baleia de Graciliano Ramos. Certamente, Peirce, o
grande investigador de linguagens, dentre outras coisas, teve contato direto ou
indireto com O Idiota do grande
mestre russo, para que categorizasse de
forma tão abrangente o ícone e a primeiridade. A literatura, certamente, como
muitos escritores, estudiosos e outros já pensaram, não possui o poder de
transformar radicalmente uma sociedade, contudo, individualmente pode apontar
para caminhos dantes nunca sonhados por várias pessoas. Literatura é possibilidade
que pode ser materializada ou não. Literatura é sonho. Pode ser concretizado ou
não.
Possibilidades da literatura e
filosofia
A filosofia
e a literatura, embora possuam preocupações
intrínsecas, ao mesmo tempo, possuem convergências bastante importantes. Um
romance, um conto, uma poesia, carregam em si mesmos, quando verdadeiramente
arte, espaços epistemológicos no mesmo grau de uma discussão filosófica, como seria o caso, por exemplo, do grande romance,
A Montanha Mágica, de Mann, em relação a questões de
temporalidade; outra dimensão de convergência seria uma das propostas por Benedito Nunes:
“Filósofos, os pré-socráticos pensaram o ser e o vir a ser como poetas que
escreviam em versos, a exemplo de Parmênides, ou em aforismos sibilinos, como
Heráclito. A partir deles, nenhuma
filosofia viveria mais sem metáfora.”
Literatura e
filosofia, juntas ou separadas, desencadeiam processos indispensáveis à
humanidade. Cremos, que, a partir do que foi exposto, diferentemente, do que
muitos escritores e outros pensam, caso não existissem a literatura e a
filosofia, em especial, sem desprezar as outras áreas do conhecimento, a
humanidade estaria muito pior do que se apresenta na contemporaneidade.
Contudo, não
cremos que tanto a filosofia, como a literatura, possam, isoladamente, mudar
todos os rumos de uma sociedade ou possam promover transformações em grande
escala, como se estivessem fabricando carneiros ordinários de plástico,
tartarugas submissas, bonecas inexpressivas, irresponsáveis mamadeiras…
Como tudo, a filosofia e a literatura dependem de um
encontro fundamental entre o desejo no sentido de Marilena Chaui, via Espinosa:
“Não desejamos nem fazemos coisas porque as julgamos boas, belas, justas ou
verdadeiras, mas porque as desejamos e as fazemos, as julgamos assim. O juízo
sobre as coisas não determina o desejo, mas é determinado por ele.” Literatura
e filosofia são, inclusive, caminhos para que tenhamos ciência da posse de
nossa liberdade. Da existência de singularidades. Por um outro lado, de acordo Deleuze, literatura
e filosofia são, acima de tudo, produtoras de conceitos.
Finalizamos
com a habitual poeticidade da filosofia de Deleuze: “Todos os aprendizados,
pelas mais diversas vias, são aprendizados inconscientes da própria arte. No
nível mais profundo, o essencial está nos signos da arte.”
A verdadeira
literatura, assim como a filosofia, buscam, implacavelmente, a humanização.
Jamais compactuam ou reforçam sistemas
submissos. Não concedem, sem resistência, nada aos opressores em qualquer
escala.O mundo de magia da literatura seduz, por si só, porque, essencialmente,
promove uma abertura possível das subjetividades. Filosofia e literatura.
Encontros vitais com inventividades inesperadas.
Referências Bibliográficas
BAPTISTA,
Ana Maria Haddad Baptista. Tempo-memória.
São Paulo, Arké Editora, 2007.
BERGSON,
Henri. Memória e Vida: textos escolhidos
por Gilles Deleuze. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo, Martins
Fontes, 2006.
CHAUÍ,
Marilena. Desejo, paixão e ação na ética
de Espinosa. São Paulo, Cia das Letras, 2011.
DELEUZE,
Gilles. Proust e os signos. Tradução
de Antonio Carlos Piquet e Roberto Machado. Rio de Janeiro,
Forense-Universitária, 1987.
_________________.
Espinosa e os signos. Tradução de Abílio Ferreira. Porto, RÉS-Editora Ltda,
[s.d.].
NUNES,
Benedito. Ensaios Filosóficos. São
Paulo, Martins Fontes, 2010.
SEFÉRIS,
Giorgos. Todo está lleno de dioses. Tradução
de Selma Ancira. México, Fondo de Cultura Económica, 1974.
As
entrevistas da Paris Review, vol. I. Tradução de Christian Schwartz e Sérgio
Alcides. São Paulo, Cia das Letras, 2011.
Observação: Boa parte deste texto já foi publicado em revistas e livros.
Profa. Ana Maria Haddad Baptista
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