segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

JOHN FANTE

Lembro-me, da época da graduação, de me interessar bastante por um autor que me foi apresentado por um amigo ainda antes da universidade: o livro era "Pergunte ao Pó" e o escritor era o norte-americano John Fante. Era daquele tipo que nos marca com um tipo de fogo indelével, numa época em que nosso espírito é ainda campo fértil para ser cultivado, e essas histórias viram uma espécie de "memória recorrente", mesmo depois que as leituras se tornam "mais sérias" (ou seja, sob camadas e camadas de fuligem de leitura alheia). Tão sérias que sequer ouvi seu nome sendo citado entre os escritores do meio do século passado e, curioso, perguntei a um grande especialista sobre ele, recebendo como resposta um olhar desaprovador e um comentário sucinto: "Aqui não é espaço para leituras adolescentes. Já nos falta o tempo para as grandes obras"...

De fato, não há qualquer livro de Fante que se enquadra na categoria "grande obra", se a entendermos como aquelas que, quer pela reflexão contida, quer pela inovação estilística, despertam o olhar humano para as grandes questões da vida: ela mesma, a morte, a Verdade, o sentido do mundo... Em geral, os livros dele discutem o sentimento de não-pertencimento, de não-compreensão, de não-aceitação. Usando o alter-ego Arturo Bandini em grande parte da obra, Fante coloca-se quase sempre como um escritor sem talento, filho de ítalo-americanos, vivendo em uma América em plena recessão ou ainda ferida por esta, procurando ser reconhecido por algo que ainda não fez: escrever um livro.

Mas...da época da graduação, em que seu nome não aparecia em nenhuma história literária, fico feliz (e não vingado, ressalta-se), por perceber que, gradativamente, mais e mais leitores, "comuns" e "profissionais" (categoria em que me enquadro), são atraídos por um tipo de encantamento às avessas: Fante constrói-se como um escritor menor, risível, orgulhoso demais para saber que não tem talento algum. Até onde sei, poucos escritores criaram um alter-ego tão explicitamente patético, tão anti-americano. Explico: em uma sociedade sedenta de modelos, heroicos mesmo quando controversos, Fante ri do "American Dream" rindo de si próprio. Outros escritores dessa época, mesmo pretendendo se colocar à margem da literatura mainstream, revestindo-se de certa áurea contracultural, o fizeram sempre com um olhar disfarçado (e narcisístico  para o espelho.

Fico feliz por ver seu nome sendo reconhecido pois seu mérito foi justamente desnudar o espelho e mostrar a realidade para a grande maioria da humanidade: a mediocridade faz parte da vida e da sociedade que construímos. Que o sonho de grandeza é um efeito especial de duração limitada: terminada a fumaça e a pirotecnia, resta muitas vezes somente aquilo que somos, sem a maquiagem.

Fico feliz pois tive um heroi que ria de si e me ensinou a rir também de mim mesmo. E no final, isso é muita coisa.

2 comentários:

  1. Gostei muito de seu texto. Prova, uma vez mais, a sua busca incansável pela autenticidade. Tarefa (claro que eu me incluo) eterna. Fascinante.

    ResponderExcluir
  2. Foi inspirado pelo seu post anterior, muito bem escrito e relevante: autores que não entraram na lista de cânones, mas nem por isso menos importantes!

    ResponderExcluir