quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Canto de Changgan


Poesia chinesa: a expressão de imagens da natureza


Canto de Changgan

Mal minha franja
cobria minha fronte,
eu brincava com flores
colhidas diante da porta.

Com seu cavalo de bambu, você vinha
e nos divertíamos
em volta do poço
e no pomar,
onde as ameixas amadureciam
Assim, juntos, em Changgan
crescemos:
duas crianças que não conheciam
a desconfiança e a raiva.
A partir dos quatorze,
me tornei sua mulher.
Tímida, tão tímida,
nem mesmo ousava sorrir,
os olhos sempre baixos,
voltados para os cantos escuros.
Mil vezes você me chamava,
mas eu nunca respondia.
Aos quinze anos deixei de franzir
as sobrancelhas.
Eu e você queríamos
nos transformar em um,
como cinza e poeira.

Eu acreditava em você como alguém
que espera sua namorada
embaixo da ponte,
apesar das águas agitadas.

Por que eu pensaria
na colina onde as mulheres aguardam
o retorno dos seus maridos?
Quando fiz dezesseis anos,
você partiu para longe,
para a garganta do rio Qutang,
onde se ergue o monte Yanyu.
É maio, por favor, cuide-se
no caminho entre rochas.
Os guinchos pungentes dos macacos
sobem ao céu.
Diante da casa,
marcas antigas de seus passos,
cobertas
de espesso limo.
Eu não consigo
varrê-las!
E também as folhas
tocadas fora de época pelo vento.
No oitavo mês
as borboletas vestem-se de amarelo.
Aos pares,
voam sobre a erva
do jardim do Oeste.
Tudo isso deixa triste meu coração,
ao ver a primavera
partir assim tão depressa.
Cedo ou tarde, quando você
regressar, vindo pelo rio,
escreva-me antes uma carta,
por favor.
Irei ao seu encontro,
sem medo da distância
pela estrada longínqua,
até o porto
dos areais do Vento Sem Fim.




Há muitos e muitos séculos constatou-se que houve povos sem prosa, sem uma linguagem abstrata, no entanto, nunca houve povos sem poesia. A poesia reside no âmago do ser. Octávio Paz sempre insistiu neste ponto. A poesia, ou seja, a necessidade de expressão do que vem de dentro. De uma interioridade.  A poesia chinesa possui uma leveza incomparável. O poema em referência é de Li Bai  (701-762). Muito conhecido na China por ser considerado um poeta imortal. Sua marca foi a busca, sem precedentes, da liberdade. Irreverência sempre foi a sua marca. Insubmisso, jamais respeitou leis e determinações do poder. Os principais elementos da poesia da chinesa são constatados, em especial, pela linguagem. Imagens leves e, ao mesmo tempo, muito ligadas à natureza. O poema de Li Bai permite que se  conheça, um pouco mais de perto, as associações e sentimentos de uma memória poética que coexiste com as demais.

Profa. Ana Maria Haddad Baptista




Um comentário:

  1. Belíssima poesia e imagino que, no original, seja ainda mais bela. Obrigado por compartilhar desse "pão dos malditos", como dizia o velho Paz.

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